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Do estágio à sociedade: quando mérito e autonomia constroem liderança

Nem todo crescimento começa com um plano

O mercado é competitivo, as decisões são apressadas e a troca constante de ambientes de trabalho costuma parecer o caminho mais rápido para avançar. 

Não falta discurso sobre plano de carreira, mas na prática, poucas trajetórias se sustentam, e transformar um estágio em uma sociedade ainda é uma exceção.

A Maria e a Adreísa fazem parte dessa exceção. Elas não começaram suas carreiras com a ambição explícita de se tornarem sócias, o que existia, na verdade, era algo mais simples e mais do que comum: dúvidas. 

A realidade prática da advocacia e do mundo empresarial, como gestão de pessoas e tomada de decisão, é algo para o qual a faculdade, sozinha, não prepara. Assim, as dúvidas surgiram. 

Dúvida sobre qual caminho seguir, sobre o tipo de profissional que queriam ser e sobre onde poderiam aprender isso veio justamente dessa percepção.

As duas, ainda jovens, no início da graduação estavam ligadas a estruturas mais tradicionais, com rotinas previsíveis e pouco espaço para tomar decisão. 

Essas experiências cumpriram um papel importante: mostrar que elas queriam mais.

 

O estágio como ponto de partida, não como promessa

Em 2015, quando Maria decidiu entrar no escritório, o objetivo não era necessariamente construir uma carreira ali. O que ela queria era ganhar vivência, entender o funcionamento do mundo profissional, aprender a prática e sair da abstração acadêmica. 

“Quando eu entrei no escritório, o que eu buscava era ganhar experiência do mundo profissional. Eu sempre soube que não seria só na faculdade que eu aprenderia a vivência da advocacia. Para me tornar uma boa profissional, eu precisava ir além da sala de aula, entender a prática e viver o dia a dia do escritório., relembra.

Adreísa que chegou no mesmo ano, estava em um momento parecido da vida, a rotina no cartório mostrou, na prática, que aquele modelo não dialogava com as expectativas que tinha para o futuro. E a entrada em um novo ambiente trouxe a clareza que ela ainda não tinha encontrado.

“Eu vinha de uma atuação pública e estava muito perdida sobre a minha carreira. Quando eu entrei no escritório e comecei a entender como a recuperação de crédito funcionava, parece que deu uma clareada. Ali eu percebi que era esse o caminho que eu queria seguir.”, conta.

Em ambos os casos, o estágio não apareceu como uma promessa de crescimento, mas sim como uma tentativa consciente de se aproximar da realidade do trabalho.

 

Liberdade veio cedo, mas a responsabilidade veio no mesmo ritmo

O que elas encontraram nos primeiros meses foi um cenário pouco comum para quem está começando. Um ambiente enxuto, com decisões próximas e responsabilidades desde cedo. Elas poderiam não estar sozinhas, mas precisavam entender que o trabalho de cada pessoa tinha peso e consequência no funcionamento do negócio.

“O escritório era muito pequeno quando eu entrei, então a responsabilidade era muito próxima. Eu sentia que, se eu não fizesse, simplesmente não acontecia. Isso fez com que eu amadurecesse muito cedo, entendendo que o meu trabalho tinha impacto real e que as responsabilidades eram compartilhadas de forma muito direta”, relembra Maria.

Adreísa viveu algo semelhante. “Desde o início, mesmo sendo estagiária, eu recebi muita autonomia. Não era alguém dizendo exatamente como fazer, mas dizendo: ‘é teu, resolve’. Isso foi desafiador, mas também foi o que mais me prendeu ao escritório.” 

Essa combinação de autonomia e responsabilidade acelerou algo que normalmente leva anos para acontecer: a percepção de que o trabalho tem consequência. Não era apenas aprender uma função, mas sustentar as suas entregas.

Mesmo com orientação, troca e sabendo que existiam pessoas disponíveis para ajudar, o aprendizado vinha justamente dessa combinação: apoio próximo e, ao mesmo tempo, autonomia para executar, errar, corrigir e seguir.

 

Aprender fazendo, e errando

Errar era inevitável. A diferença estava no que vinha depois.  

Para Maria, entender que não precisava ser perfeita foi um divisor de águas. “Meu principal aprendizado ao longo dessa trajetória foi entender que eu posso errar. Que eu não preciso ser perfeita o tempo todo para ser uma boa profissional. Errar, corrigir rápido e aprender com isso fez toda a diferença para o meu crescimento e para a confiança que eu tenho hoje.”

Adreísa chegou a uma conclusão parecida, especialmente quando passou a tomar decisões mais estratégicas.“Se você tem medo de errar, a gestão não é o seu lugar. Errar faz parte das decisões estratégicas, desde que seja um erro calculado e compartilhado. Muitas das escolhas que hoje eu faria diferente só foram possíveis porque eu errei antes.”

O erro deixou de ser algo a evitar a qualquer custo e passou a ser parte do processo de amadurecimento. Com o tempo, já em 2018, como advogadas, esses aprendizados se transformaram em confiança, e não uma confiança abstrata, mas construída.

 

O momento em que executar deixou de ser suficiente

O que veio depois não estava nos planos

A mudança mais relevante nas duas trajetórias não aconteceu de forma abrupta, não houve um cargo novo ou um anúncio formal. 

A virada foi gradual: elas passaram a ser chamadas para conversas que iam além da execução. Planejamento, crescimento, estrutura, impacto das decisões. 

Maria lembra do choque inicial ao entrar nesse tipo de discussão. “O primeiro contato real com planejamento e gestão foi um choque, porque isso não é minimamente tratado na faculdade.”

 

Abrir mão do controle também é crescer

Esse novo papel trouxe um desafio comum às duas: parar de centralizar. 

Adreísa viveu esse momento quando passou a estruturar uma nova frente de atuação. Além de fazer, era preciso fazer parte das decisões 

Estudar mercado, pensar processos, precificação, pessoas. A função já não era apenas cumprir demandas, mas construir algo que se sustentasse.

E nesse processo, a execução direta de tudo começou a perder sentido. O que antes parecia zelo passou a revelar um limite claro: centralizar decisões e tarefas poderia dificultar o crescimento. 

“Muitas vezes, abrir mão da execução direta foi mais difícil do que aprender algo novo.”, relembra.

Confiar, delegar e aceitar que o resultado nem sempre seria exatamente como o imaginado passaram a fazer parte do trabalho e foi nesse ponto que a mentalidade começou a mudar. 

Menos controle sobre cada detalhe, e mais responsabilidade sobre o todo. Um movimento silencioso que alinhou a atuação à lógica de sócia, muito antes do título.

Ao mesmo tempo em que ampliaram responsabilidades, o ambiente de trabalho também se moldava. A forma como decisões eram discutidas, erros tratados e ideias ouvidas foi sendo construída no cotidiano. A cobrança existia, mas vinha acompanhada de respeito, diálogo e apoio.

Adreísa resume essa dinâmica como uma “leveza sem permissividade”, uma lógica que ajudou a consolidar relações mais maduras e acabou se refletindo na cultura que hoje orienta o trabalho ali.

 

A sociedade como conquista

Mais compromisso, mas não mais conforto

Quando o convite para a sociedade aconteceu, em 2021, ele veio como o passo certo dentro de uma trajetória que já vinha sendo construída. Tornar-se sócia significou formalizar uma responsabilidade que, em muitos aspectos, já fazia parte do dia a dia.

Maria descreve esse momento como uma mudança clara de perspectiva: “A partir do momento em que me tornei sócia, virou uma chave. Eu deixei de simplesmente executar tarefas e passei a construir algo pensando no meu futuro.” 

A sociedade trouxe mais clareza sobre o propósito e o alinhamento entre vida profissional e escolhas de longo prazo.

Para elas, a sociedade não marcou um ponto de chegada, mas a consolidação de uma trajetória consistente.

O “final feliz” não foi o encerramento da história, mas sim a continuidade. 

 

O que o crescimento profissional realmente significa?

A trajetória da Maria e da  Adreísa desbanca a ideia confortável de que crescer profissionalmente depende de um grande momento decisivo, uma promoção inesperada, um convite isolado ou uma virada repentina na carreira. 

O que aparece nessa história é algo mais exigente: uma sequência contínua de escolhas feitas quando ninguém mais está olhando – ou talvez esteja.

Para mulheres, em um mercado historicamente marcado por poucas referências de longo prazo, esse tipo de crescimento costuma ser ainda menos visível. 

Não existem atalhos e nem garantias, o avanço acontece dia após dia, na responsabilidade assumida desde cedo, na disposição para aprender com o erro, na ampliação da visão para além da função, entendendo o impacto das próprias decisões sobre pessoas e na consistência das entregas.

O que diferencia essas trajetórias é a forma como ela foi enfrentada. A Maria e a Adreísa não cresceram esperando a validação externa ou um sinal de que estavam prontas. 

Elas cresceram porque decidiram ficar, aprender, errar, ajustar e seguir, mesmo quando o caminho não era óbvio.

Os  conselhos das duas funcionam menos como recomendações e mais como síntese de tudo o que viveram.

“Fazer o melhor possível com o que você tem, aproveitar as oportunidades e estar atento ao ambiente são atitudes que moldam muito mais do que qualquer tarefa isolada”, diz Maria, traduzindo a lógica de quem entendeu que crescimento nasce da postura diária, não do cargo.

Adreísa complementa esse olhar ao deslocar o foco, para o contexto: “A primeira coisa é escolher bem o ambiente onde você vai trabalhar. Não adianta ser uma pessoa proativa e cheia de ideias se você está num lugar onde ninguém escuta o que você pensa.” Para ela, o mérito precisa de espaço para se transformar em trajetória.

A história das duas revela que crescer não é como um prêmio concedido em um momento específico da vida. 

É uma construção feita ao longo do tempo, que aparece quando você decide assumir responsabilidade, sustentar suas escolhas e permanecer quando seria mais fácil recomeçar em outro lugar.

 

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